Rádio Saara - Um quintal de possibilidades

Entre pessoas, objetos e um som incessante: a história e curiosidades da Rádio comercial do Saara

Por Clara Reis Alvim |

Ruas extensas e um pouco estreitas, mas que guardam muitas histórias e inúmeras possibilidades de garantir o que se deseja. Ruas que fazem parte da identidade do Rio de Janeiro. Alfândega, Uruguaiana, Buenos Aires e Senhor dos Passos são apenas algumas dentre as 12 oficiais que somadas as pracinhas, travessas menores, galerias e becos se transformam em 30 logradouros presentes. A circulação é grandiosa, quase 80 mil pessoas visitam as 1.000 lojas que estão presentes no local diariamente e, outras 1.500 encontraram nessas lojas suas fontes de renda. Por lá, é possível encontrar desde acessórios femininos, roupas e óculos de grau até lojas de ferramentas, utensílios de cozinha e especializadas em ferro.

Estamos falando do Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega) que é o maior centro comercial a céu aberto da América Latina. Nasceu a partir de um conjunto de imigrantes libaneses e árabes que, no final do século XIX e início do XX, se instalaram na parte central da cidade enquanto fugiam das guerras dos seus países. São mais de 60 anos de história e, em 40 deles, um som forte e marcante sempre ecoou ao fundo: a Rádio Saara.

Paisagem sonora e visual do Saara.
Na Rua da Alfandega o emaranhado de fios se mistura com as caixas de som que atraem nossa atenção com as promoções do dia, os bordões da rádio e compoem uma paisagem visual e sonora ao mesmo tempo.
Fotos: Clara Reis Alvim

Fugindo das rádios tradicionais que os ouvintes precisam sintonizar, encontrar o melhor sinal e sentir vontade de ouvir, a Rádio Saara funciona o dia todo e, quem passa pelas ruas do centro do Rio já conhece um dos Patrimônios Imateriais Culturais da cidade. Seu som é evidente mesmo em meio ao caos de gente, de músicas que vem das lojas e da correria do dia a dia. Sem perceber, os visitantes são influenciados e acabam seguindo as dicas oferecidas pela rádio comercial. Formada por um conjunto de alto-falantes presos em postes em um quadrilátero de 12 ruas, a rádio pode ser vista como um meio de comunicação popular instalado sempre próximo a locais com muito movimento. Os anúncios das lojas são constantes e sua audiência compulsória também, ela é o verdadeiro pilar do centro comercial da cidade.

Em um local repleto de etnias, culturas e vivências distintas, no qual árabes, judeus, chineses, portugueses, coreanos, armênios, brasileiros e entre outras várias nacionalidades se fazem presentes, é lá que a diversidade do Rio de Janeiro coabita. Mas sem perder o orgulho de ser brasileiro e carioca, em todo canto é possível encontrar elementos da cultura do estado e do país. Ecobags, bonés, camisas e bandeiras estão nos quatro pontos do Saara, de ponta a ponta. As pessoas são receptivas e simpáticas, a sensação é de estar em casa. Para os cariocas, o local é como se fosse um quintal de possibilidades.

Itens da cultura local vendidos no Saara.
Percorrendo as ruas vemos diversos itens que representam os simbolos da cultura impressos nos produtos vendidos no Saara.
Fotos: Clara Reis Alvim

Andar por aquelas ruas abre portas para o novo, para os encontros despretensiosos entre amigos e uma boa criação de memórias. E, foi lá que o já falecido Ênio Carlos Bittencourt, em 1985, viu a oportunidade de trabalhar com utilidade pública nas caixas de som. Com a ajuda de Luiz Antônio Bap, que é radialista, jornalista e diretor-geral da Rádio, eles se fortaleceram e conseguiram se manter até os dias atuais.

“O Rio de Janeiro continua sendo”: a história da Rádio Saara

Em 1985, a realidade era totalmente diferente da que estamos acostumados. Não existia celular no Brasil e muito menos internet, o contato não era tão fácil como nos dias atuais. Perder um filho, documentos, comunicar o falecimento ou o aniversário de pessoas importantes da região do centro comercial não era uma missão fácil de ser resolvida, principalmente nas épocas de maior movimento como Natal, Carnaval e festividades da cidade. E foi com esse intuito que o Ênio Bittencourt criou a Rádio Saara e o seu slogan: “utilidade pública em primeiro lugar”. Pouco tempo depois, Luiz Antônio que é conhecido popularmente como Bap entrou para a equipe.

Luiz Antônio Bap durante a entrevista.
Luiz Antônio Bap durante a entrevista.
Foto: Ana Luiza Teixeira

Com os gastos crescendo e a vontade de comunicar cada vez mais latente surgiu uma ideia brilhante: fazer propagandas. Propagandas que seriam responsáveis por alavancar e trazer ainda mais visibilidade para a Rádio. Os radialistas anunciavam as lojas do bairro de maneira responsável e eficiente. O retorno para os lojistas era tão bom, ou melhor, ainda hoje é tão bom que algumas lojas depositam suas expectativas de circulação e sucesso na rádio há mais de 30 anos. “A gente tem cuidado de fazer um comercial popular, sem ser popularesco, mas popular. Que é uma linguagem direta.”, contou Luiz.

O tempo foi passando e as mudanças tecnológicas surgiram de forma rápida, pegando todos de surpresa. Surgiram influencers, redes sociais e o mundo passou a ser acessado em poucos cliques. A necessidade de se reinventar ganhou força e a criatividade mais uma vez teve que entrar para o jogo. Como manter a atenção do público para a voz que ecoa no Saara? Criando personagens e entregando resultados em 40 segundos. Os personagens possuem ligação com os donos das lojas, como se eles ganhassem voz, mas de uma forma inanimada e são colocados nos anúncios como se fossem assinaturas comerciais. Arlette, Agnaldo e Glorinha são alguns dos nomes dos queridinhos do público do Saara.

Em meio ao sol, chuva, vento e vandalismo surge o desafio de manter os alto-falantes sempre ativos e em um bom estado. Para que a programação não sofra danos e cumpra com qualidade ofertada, a manutenção precisa ser feita mais de uma vez na mesma semana. De forma analógica seguindo as raízes da rádio, técnicos fazem vistorias nos postes e consertam os problemas que surgem. Mas até hoje, esse está longe de ser o maior desafio que a rádio já enfrentou.

Escute os personagens da rádio:

O mundo parou em 2020 e pela primeira vez a rádio também. Uma rádio poste, comercial e que funciona no maior polo de circulação do Rio precisou ser silenciada para que o vírus e as mortes daqueles que usavam da sua voz não se tornassem pauta. 100 dias parados vivendo de incertezas e negociações para que o sonho não tivesse fim. E realmente não teve, a equipe voltou menor, mas a vontade de fazer acontecer continuou sendo a mesma. Com seis pessoas trabalhando acabou sendo um pouco difícil manter o antigo quadro chamado “Saara News” que era responsável por notícias e até mesmo usado para falar de futebol. O pequeno grupo se divide entre as funções de locução, operação técnica e administração. Hoje o trabalho é focado em propagar lojas, serviços de utilidade pública, órgãos públicos, shows de cantores que estão iniciando a carreira e músicas para alegrar ainda mais a vida de quem passa pela região.

Foto da reportagem sobre a Rádio Saara
Foto: Ana Luiza Teixeira / Clara Reis Alvim

“E buzinando a moça, e comandando a massa”: as lojas e o público

Mesmo sendo uma rádio totalmente analógica, a internet se faz presente de forma sutil. O retorno do público sobre o que estão ouvindo e o contato imediato com técnicos da equipe são feitos através das redes sociais. Mas, o endereço da Avenida Passos, n° 91, também é super conhecido e recebe sempre visitas de ouvintes, lojistas e curiosos. O local de onde saem os comerciais é pequeno, mas super aconchegante. Lá é possível encontrar tudo que um estúdio precisa para funcionar. Desde mesa de som, retornos, computadores até televisão e microfones. É assim que a rádio Saara se mantém viva e entregando qualidade.

Equipamentos presentes no estúdio da Rádio.
Equipamentos presentes no estúdio da Rádio.
Foto: Clara Reis Alvim

O trabalho feito pela rádio gera resultado para as lojas. Durante a produção desta reportagem visitei cinco delas e todas apontaram que o público havia crescido com os anúncios feitos. Fugindo da lógica, nenhuma demonstrou interesse em largar a Rádio, a eficiência da voz da do Saara atinge literalmente quem está presente fisicamente no local, esse é o diferencial.

A voz dos lojistas

Para o público, a comunicação popular sem ser popularesca também é a chave para que eles continuem sendo influenciados pela rádio. “Influencia, principalmente se estivermos buscando algo e ela anunciar o número da loja e dizer que lá tem”, afirmou a ouvinte Maria Eduarda. Talvez, a chave para prender os ouvintes sejam as dicas oferecidas pela programação, “As coisas que estamos procurando e não sabemos onde encontrar, eles acabam dando umas dicas”, contou outra ouvinte, Edna Alves da Costa.

Para os turistas que nunca visitaram o Saara e não estão acostumados com o tumulto e a vasta possibilidade de opções, a rádio funciona como uma mapa. Um verdadeiro guia sonoro que lhe tira da posição de estranheza e ajuda a se localizar.

O guia sonoro se fortalece e se torna ainda mais animado em épocas de festividades. No show da cantora Lady Gaga, em Copacabana, no dia 3 de maio de 2025, não foi só a praia que entrou no clima durante o final de semana do evento. Na rádio, as músicas da rainha pop tocavam e dividiam espaço com os anúncios das lojas que estavam vendendo fantasias, acessórios e roupas para o evento. Entre “Bad Romance” e "Abracadabra”, o público vibrava, comprava e a sensação de conseguir o que se desejava para curtir o show era como sair ao som de “Applause” das lojas. “No show da Lady Gaga, lógico que tem muito turista e a gente coloca as músicas da Lady Gaga.”, contou Bap contando uma das dicas para atrair ainda mais as pessoas.

“E todo Rio de Janeiro, aquele abraço!”: sem perder as origens

Talvez, reconhecer o que o levou a ser visto, valorizar e não abrir mão da sua origem seja a chave para o sucesso. E, é isso que a rádio Saara faz. Mesmo com a renda vindo majoritariamente das propagandas, o seu amor pelo público prevalece e o seu Slogan: “Utilidade pública em primeiro lugar” também. Mesmo com o avanço das redes sociais que facilitam a comunicação, seus serviços de utilidade pública continuam sendo essenciais no centro comercial. Melhor dizendo, continuam salvando não só identidades e pertences perdidos, mas sim vidas.

Pouco tempo antes da minha visita à rádio, havia acontecido uma situação em que a eficácia desse serviço foi colocada a prova. Um menino com Transtorno do Espectro Autista nível 3, se perdeu no caos de gente e seu avô ficou desesperado. Entre milhares de pessoas, uma criança perdida e um grande público tentando achá-lo. Até que a ideia de ir até a rádio surgiu e imediatamente anunciaram o que estava acontecendo, logo depois o menino foi encontrado e seu avô pôde respirar em paz. Mas a história poderia ser outra e triste, se o trabalho feito e anunciado nas 85 caixinhas de som não fosse realizado no local.

Mais do que um serviço de som. Essa voz forte e que salva, vidas e comércios, é o coração do Centro do Rio. Ela permanece firme, atravessando décadas, resistindo ao tempo, à tecnologia e às mudanças da cidade. Ela é um elo invisível que une histórias, orienta passos e acolhe pessoas. É memória viva, afeto em forma de anúncio e trilha sonora da correria. No Saara, tudo muda o tempo todo, menos a certeza de que, entre uma buzina e uma promoção, há sempre alguém ouvindo — e sendo ouvido. Porque no fundo, como dizem por aqui, o Saara não é só comércio. É quintal. É casa. E a rádio é seu coração em alto-falante.

Homem e mulher caminhando em uma rua não muito movimentada do Saara.
Homem e mulher caminhando em uma rua não muito movimentada do Saara.
Foto: Clara Reis Alvim